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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

POEMA DA SEMANA (18)

Não Desafies

Não desafies
a alegria.

Quando ela chegue
um instante só
não lhe perguntes
porquê?

Estende as mãos ávidas
para o calor
da cinza fria.

João José Cochofel

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

POEMA DA SEMANA (17)

Apresentação


Aqui está minha vida — esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz — esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor — este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança — este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Cecília Meireles

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

POEMA DA SEMANA (16)

Bom e expressivo


Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,

tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: — Não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-

dra que rola na pedra...
Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,

a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...

Alexandre O'Neill

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

POEMA DA SEMANA (15)

Conquista


Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

POEMA DA SEMANA (14)

Barca Bela


Pescador da barca bela, 
Onde vais pescar com ela. 
Que é tão bela, 
Oh pescador? 

Não vês que a última estrela 
No céu nublado se vela? 
Colhe a vela, 
Oh pescador! 

Deita o lanço com cautela, 
Que a sereia canta bela... 
Mas cautela, 
Oh pescador! 

Não se enrede a rede nela, 
Que perdido é remo e vela, 
Só de vê-la, 
Oh pescador. 

Pescador da barca bela, 
Inda é tempo, foge dela, 
Foge dela 
Oh pescador!

Almeida Garrett

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

POEMA DA SEMANA (13)

O Inverno

Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,

O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:

Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:

Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

POEMA DA SEMANA (13)

Falavam-me de Amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correira

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

POEMA DA SEMANA (12)

Ausência


Num deserto sem água
Numa noite sem lua 
Num país sem nome 
Ou numa terra nua 

Por maior que seja o desespero 
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua. 

Sophia de Mello Breyner Andresen 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

POEMA DA SEMANA (11)

Não são os prazeres da manhã mais doces


Não são os prazeres da manhã mais doces
Do que os prazeres da noite?
E têm os prazeres vigorosos dos jovens
Vergonha da luz?

Que a velhice e a doença roubem silenciosas
As vinhas pela noite;
Mas os que ardem de juventude vigorosa
Colham os frutos à luz.

William Blake, tradução de Paulo Quintela

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

POEMA DA SEMANA (10)

Ser Poeta


Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!

Florbela Espanca

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

POEMA DA SEMANA (9)

Ascensão


Nunca estive tão perto da verdade.
Sinto-a contra mim,
Sei que vou com ela.

Tantas vezes falei negando sempre,
esgotando todas as negações possíveis,
conduzindo-as ao cerco da verdade,
que hoje, côncavo tão côncavo,

sou inteiramente liso interiormente,
sou um aquário dos mares,
sou apenas um balão cheio dessa verdade do mundo.

Sei que vou com ela,
sinto-a contra mim, -
nunca estive tão perto da verdade.

Jorge de Sena

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A VOZ DOS ALUNOS (2)

O Nascimento



Ninguém morre sem antes nascer.

Quem nasce é sujeito ao sofrimento.

Porém, ninguém nasceu para sofrer.


O nascimento é só um momento

No qual a vida no homem começa.

Mas, a morte é outro mistério

Que ameaça até uma criança!


Quem nasceu merece a vida,

Quem cresceu por algum tempo sofreu,

Quem envelheceu, já foi criança,

Já caminhou, já errou e aprendeu.


Nascer é um motivo de alegria.

A morte é uma coisa fria.


Mas a verdade é a própria vida


Liorido Carlos Mussá

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

POEMA DA SEMANA (8)

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O Sol doira sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

Clica aqui para escutares a declamação deste poema por João Villaret.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

POEMA DA SEMANA (7)

Achado


Ia pela mata
Só comigo, à toa.
Longe de encontrar
Cousa má nem boa.

À sombra avistei
Que linda florinha!
Bela como uns olhos
ou uma estrelinha.

Quando a quis colher
Ouvi-a corar:
«Vais então cortar-me
Pra me ver's murchar?»

Raízes e tudo
A arranquei assim.
Pra casa a levei,
Pu-la no jardim.

Plantei-a outra vez
Em sítio de amores:
E agora dá ramos,
Mais folhas, mais flores.

J. W. Goethe, Tradução de Paulo Quintela

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

POEMA DA SEMANA (6)

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, 
                             deixa passar a Vida!

Natália Correia

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

POEMA DA SEMANA (5)

Louvor do Aprender

Aprende o mais simples! Pra aqueles
Cujo tempo chegou
Nunca é tarde de mais!
Aprende o abc, não chega, mas
Aprende-o! E não te enfades!
Começa! Tens de saber tudo!
Tens de tomar a chefia!

Aprende, homem do asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenária!
Tens de tomar a chefia!

Frequenta a escola, homem sem casa!
Arranja saber, homem com frio!
Faminto, pega no livro: é uma arma.
Tens de tomar a chefia.

Não te acanhes de perguntar, companheiro!
Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
Vê c’os teus próprios olhos!
O que tu mesmo não sabes
Não o sabes.
Verifica a conta:
És tu que a pagas.
Põe o dedo em cada parcela,
Pergunta: Como aparece isto aqui?
Tens de tomar a chefia.

Bertold Brecht, tradução de Paulo Quintela

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

POEMA DA SEMANA (4)

Velha anedota


Passando pelo Chiado
Uma senhora horrorosa
Um estudante delicado
Disse-lhe: "É uma rosa

Fresca, pura, inebriante,
Mui viçosa e perfumada:
Vossa Excelência é estonteante!"
Ela toda espevitada

Respondeu ao galanteador:
"O mesmo não lhe dizer
Penaliza-me, senhor;
Mas não posso. Que fazer?"

O nosso herói, o estudante,
Que pra respostas se pinta,
Retorquiu no mesmo instante:
"Oh! minha senhora minta

Como a Vossa Excelência eu fiz
'Inda não há bocadinho!..."
Ela ouvir-lhe mais não quis
E seguiu seu caminho!...

Mário de Sá-Carneiro


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

POEMA DA SEMANA (3)

De que são feitos os dias?


De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

POEMA DA SEMANA (2)

Horizonte


Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

POEMA DA SEMANA (1)

Ressurreição


Porque a forma das coisas lhe fugia,
O poeta deitou-se e teve sono.
Mais nenhuma ilusão apetecia,
Mais nenhum coração era seu dono.

Cada fruto maduro apodrecia;
Cada ninho morria de abandono;
Nada lutava e nada resistia,
Porque na cor de tudo havia outono.

Só a razão da vida via mais:
Terra, sementes, caules, animais
Descansavam apenas um momento.

E o vencido poeta despertou
Vivo como a certeza dum rebento
Na seiva do poema que sonhou.

Miguel Torga